Caríssimos(as) irmãos(as), chegamos a um tempo forte da nossa caminhada de fé: a quaresma. Com a celebração da quarta-feira de cinzas já começamos a vivenciar um tempo de penitência.
A Quaresma é um tempo forte do caminho cristão, marcado pela conversão do coração e pela retomada do essencial. Não se trata apenas de um período de privações exteriores, mas de uma travessia interior: quarenta dias para reaprender a escutar Deus, rever escolhas, purificar intenções e deixar que a graça recomponha aquilo que em nós se fragmentou. É um tempo favorável, pedagógico e misericordioso, no qual o Senhor nos chama a voltar, não por medo, mas por amor.
A primeira leitura de Joel soa como um grito que atravessa os séculos: “rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”. Deus não se contenta com sinais exteriores de piedade quando o interior permanece endurecido. O jejum, o choro e a penitência só têm sentido se forem expressão de um coração que reconhece sua distância e deseja retornar. O apelo é comunitário, envolve todos, dos anciãos às crianças, porque a conversão nunca é isolada: quando o coração do povo volta-se para Deus, a misericórdia também se derrama sobre a terra ferida.
O Salmo 50 coloca palavras nos lábios de quem entra verdadeiramente em Quaresma: reconhecimento humilde do pecado e súplica por um coração novo. Não se trata de autodepreciação, mas de verdade. Quem se reconhece necessitado abre espaço para que Deus recrie por dentro, devolva a alegria da salvação e transforme a culpa em louvor. A Quaresma é, assim, menos um tempo de tristeza e mais um tempo de verdade libertadora.
São Paulo, na segunda leitura, dá o tom decisivo: “é agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”. A reconciliação com Deus não pode ser adiada indefinidamente. A graça não é automática nem mágica; ela pede acolhida concreta. Receber a graça “em vão” é atravessar a Quaresma sem deixar-se tocar, mantendo as mesmas rupturas interiores, os mesmos hábitos, as mesmas resistências ao Evangelho.
No Evangelho, Jesus aprofunda o sentido das práticas quaresmais tradicionais: esmola, oração e jejum. Ele não as rejeita, mas purifica sua motivação. Quando essas práticas buscam reconhecimento, perdem sua força espiritual; quando são vividas no segredo, tornam-se lugar de encontro verdadeiro com o Pai. A Quaresma, então, não é palco para exibição religiosa, mas deserto silencioso onde Deus vê, conhece e recompensa o que nasce do íntimo do coração.
Para viver bem este tempo quaresmal, alguns conselhos concretos:
Deus nos abençoe e nos guarde! Vivamos bem esse tempo quaresmal!
Seminarista Mirosmar Gonçalves