Neste tempo quaresmal, a Palavra de Deus continua a purificar o sentido das nossas práticas religiosas, para que não se tornem vazias ou incoerentes. A Quaresma não é um teatro espiritual, mas um caminho de verdade, no qual Deus desmonta aparências e conduz o coração ao essencial. Jejuar, rezar e fazer penitência só têm valor quando nos colocam em sintonia com o coração misericordioso do Pai.
A primeira leitura do profeta Isaías é dura e profundamente atual. Deus denuncia um jejum que não transforma a vida, um culto que convive tranquilamente com a injustiça, a opressão e a indiferença. Não basta curvar a cabeça, vestir-se de cinza ou multiplicar gestos externos se o coração continua fechado ao sofrimento do outro. O jejum que agrada a Deus é aquele que rompe cadeias, que restitui dignidade, que partilha o pão e reconhece no pobre um irmão. A conversão quaresmal, portanto, passa necessariamente pela revisão das nossas relações e pela responsabilidade concreta diante da dor alheia.
O Salmo 50 recolhe essa denúncia e a transforma em súplica humilde. Deus não se deixa convencer por sacrifícios exteriores quando falta um coração arrependido. O verdadeiro culto nasce da verdade interior: reconhecer o próprio pecado, assumir a fragilidade e apresentar-se diante de Deus sem máscaras. Na Quaresma, somos chamados a permitir que essa verdade nos atravesse, não para nos esmagar, mas para nos reconstruir pela misericórdia.
No Evangelho, Jesus oferece a chave última para compreender o jejum cristão. Ele se apresenta como o Esposo. Enquanto o Esposo está presente, há alegria; quando Ele é tirado, nasce o jejum. O jejum, então, não é simples obrigação religiosa, mas expressão de saudade, de desejo, de espera. Jejuamos porque sentimos falta de Deus, porque reconhecemos que algo ainda não está pleno em nós e no mundo. A Quaresma nos coloca nesse tempo de espera amorosa, em que o coração aprende a desejar mais profundamente o Senhor.
Assim, a liturgia nos ensina que o jejum quaresmal não pode ser separado da caridade e da justiça. Jejuar é esvaziar-se para que o outro tenha lugar; é criar espaço para Deus e para o irmão. Quando o jejum se traduz em partilha, em cuidado com os feridos da vida e em compromisso com o bem, então a luz começa a brilhar como a aurora, e a resposta de Deus ecoa com força: “Eis-me aqui”.
Deus nos abençoe e nos guarde!
Seminarista Mirosmar Gonçalves