A Quaresma é um tempo forte de graça e de verdade, no qual a Igreja nos conduz ao deserto interior para reaprender o essencial. Não se trata apenas de um período de renúncias externas, mas de um caminho de conversão do coração, de reordenar a vida a partir de Deus. É tempo favorável para escutar a Palavra, rever escolhas, curar relações e permitir que o Senhor ilumine as zonas obscuras da nossa existência, preparando-nos para a alegria da Páscoa.
A primeira leitura de Isaías mostra com clareza que a conversão autêntica passa necessariamente pela forma como nos relacionamos com o outro. Deus denuncia práticas religiosas que convivem com opressão, autoritarismo e palavras feridas. A luz prometida não nasce de ritos vazios, mas de um coração aberto ao indigente, atento ao necessitado e comprometido com a justiça. Quando a fé se traduz em cuidado concreto, a vida estéril se transforma em jardim irrigado, e aquele que acolhe o outro torna-se instrumento de reconstrução: reconstrutor de ruínas, restaurador de caminhos. A Quaresma, assim, não nos afasta do mundo, mas nos devolve a ele com um coração mais humano e mais evangélico.
O Salmo responsorial assume o tom de súplica humilde daquele que sabe que depende inteiramente de Deus. Reconhecer-se pobre diante do Senhor é condição para aprender seus caminhos e caminhar na verdade. A oração quaresmal não é altiva nem pretensiosa; ela brota da consciência da fragilidade e do desejo sincero de ser conduzido por Deus. Quem reza assim encontra n’Ele não um juiz severo, mas um Pai bom, clemente e atento ao clamor de seus filhos.
No Evangelho, Jesus rompe definitivamente as fronteiras da falsa justiça religiosa ao chamar Levi, um cobrador de impostos, e sentar-se à mesa com pecadores. A conversão começa quando alguém se deixa olhar e chamar por Jesus. Levi não é convencido por discursos morais, mas por uma palavra simples e decisiva: “Segue-me”. A Quaresma é esse tempo em que Cristo passa novamente pela nossa vida, entra nas nossas casas, senta-se à nossa mesa e nos chama a levantar, deixar o que nos prende e segui-lo. Não são os que se julgam justos que se abrem à salvação, mas aqueles que reconhecem a própria doença e desejam ser curados.
Para viver bem este tempo quaresmal, a Palavra nos oferece caminhos concretos:
Assim vivida, a Quaresma deixa de ser um peso e torna-se um caminho de luz que nasce nas trevas e conduz à vida nova em Cristo.
Seminarista Mirosmar Gonçalves.