RETIRO QUARESMAL ONLINE
DIA 22 DE FEVEREIRO – 1º DOMINGO DA QUARESMA
“Nem só de pão viverá o homem,
Mas de toda palavra que sai da boca de Deus”
(Mt 4,4)
Leituras: Gn 2,7-9;3,1-7; Sl 50; Rm 5,12-19; Mt 4,1-11.
PEDIR A GRAÇA DA SEMANA
Que o Senhor conceda sua graça para esvaziar minha ‘casa’
interior dos apegos, ídolos, vaidades... e assim
poder viver o seguimento de seu Filho
Com mais inspiração.
INTRODUÇÃO
- A quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola.
- O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples.
- A oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e assim nos deixemos conduzir por Ele.
- A esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
- Para viver a Quaresma com mais inspiração, a Igreja no Brasil nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar a sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade.
- Com o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CF quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo, por isso seu tema para o ano de 2026 é “Fraternidade e Moradia”.
- O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”?
- O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um.
- O problema da moradia não é só uma realidade externa. Por isso o tempo quaresmal é uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”.
- Existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos e irmãs.
- Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.
EVANGELHO DE JESUS CRISTO SEGUNDO
SÃO MATEUS 4,1-11
- Meditando a Palavra de Deus
- Comece sua oração criando um ambiente favorável: entre em sua “tenda interior”, tome distância dos ruídos, mobilize seu corpo, pacifique, sinta-se na presença do Senhor e peça a graça indicada para esta semana.
- Sua “casa interior” é lugar do encontro com o Senhor. Você é habitado por Ele. Sua presença provoca mudanças. Por isso, deixe ressoar a voz daquele que quer ser seu hóspede – “Eu quero, em tua casa, celebrar a minha ceia”.
- Leia o Evangelho deste domingo e os pontos abaixo como ajuda para aquecer este momento de intimidade com o Senhor.
- Que mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior’ e abrir espaço para a atuação livre de Deus?
- Como você se sente em sua “casa interior”? Precisa abri-la, arejá-la, modifica-la, iluminá-la...
- É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?
- O primeiro domingo da Quaresma nos “desloca” até o deserto das tentações.
- Ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: pão do ego; poder autocentrado e vaidade estéril.
- Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois de seu batismo, com a Palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”
- Agora, contudo, no deserto, Ele vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses.
- O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais Ele esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” e “a maneira humana.
- Conduzido pela força do Espírito, Jesus viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas.
- Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo, daí em diante Ele buscou os melhores meios para viver a sua missão.
- No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza e o prestígio não eram “meios” para realizar a vontade do Pai.
- Pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos.
- Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.
- O tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade.
- Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas.
- Quando este percurso for vivido de maneira mais intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à “Terra prometida”, onde há fartura de pão.
- É preciso retornar à nossa “casa interior”, para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos.
- Somente Deus é Senhor de nossa vida...
- Rezando à luz da Palavra de Deus
- Nossa liberdade sente-se movida e atraída em duas direções. A cena das tentações de Jesus “desvela”, isto é, distingue, põe às claras dois dinamismos, duas tendências, dois impulsos que se fazem presentes em nosso interior.
- Um de alargamento ou expansão de nós mesmos em direção aos outros e de Deus. E outro de fechamento, autocentralidade, resistência e medo.
- A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos alimentamos...
- É aqui que entra a liberdade para deixar-se conduzir pelo Espírito. O Centro é o Espírito Santo.
- Quer um conselho? No silêncio de sua tenda, entre em diálogo profundo com aquele que faz morada em seu interior...
Oração
Senhor Jesus,
Coração de amor e obediência ao Pai,
Vós fostes conduzidos pelo Espírito ao deserto
para enfrentar o tentador,
mostrando-nos que a verdadeira força não reside
no poder ou no ter,
mas na confiança total no amor de Deus.
Reparai as vezes que colocamos
nossos interesses materiais acima da missão.
Dai-nos a fome da Tua Palavra e a sabedoria
para vivermos na simplicidade.
Reparai as vezes que tentamos forçar
a Tua vontade à nossa.
Dai-nos a graça da confiança, mesmo nas horas
de "deserto", no silêncio e na incerteza.
Reparai as vezes que nos ajoelhamos
perante os ídolos do sucesso,
do poder e da vaidade.
Renovai em nós o desejo de amar e servir a Deus
sobre todas as coisas.
Como vós, queremos ser "pão partido"
para o mundo.
Ajudai-nos a transformar as nossas tentações
em momentos de reparação,
unindo as nossas fraquezas ao vosso sacrifício de amor.
Que o vosso Espírito nos guie, para que,
fiéis ao Evangelho, vivamos
no serviço aos mais pobres.
Amém.
Para refletir: Quais são as tentações atuais que enfrento? O que me tem mais seduzido? Como procuro vencer as tentações? Tenho seguido o Projeto de Deus ou os projetos humanos? Em que esse Evangelho me ajuda a viver com mais fidelidade, amor e ardor o seguimento de Jesus? ...
3. Contemplando a Palavra de Deus
- Jesus, depois do seu batismo no rio Jordão, foi conduzido pelo Espírito para o deserto, o lugar da “prova”, a fim de “ser tentado pelo Demônio” (vers. 1).
- Os “quarenta dias” que Jesus passou nesse lugar (vers. 2), devem ser postos em relação com os “quarenta anos” que os hebreus passaram no deserto, depois de terem sido libertados do Egito, e onde tiveram de fazer opções entre Deus e o mal, entre a liberdade e a escravidão.
- É importante a indicação de que Jesus é conduzido pelo Espírito de Deus, esse Espírito que desceu sobre Ele no momento em que foi batizado: será o mesmo Espírito que O sustentará ao longo da sua missão e que Lhe dará a força para fazer escolhas acertadas, na linha do projeto de Deus.
- O tempo que passou no deserto, a refletir sobre a missão que o esperava, foi para Jesus um tempo de prova, de decisões, talvez de purificação das razões que o moviam.
- A figura do “diabo” corporiza, nesse contexto de escolhas, os caminhos errados que também estão à disposição de Jesus.
- O cenário é montado à volta de um diálogo em que Jesus e o “diabo” debatem as diversas possibilidades que se apresentam, numa luta dialética feita a partir de citações das escrituras sagradas.
- A catequese sobre as opções de Jesus aparece em três quadros ou “parábolas”.
- A primeira (vers. 3-4) sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de realização material, de satisfação de necessidades materiais: “se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães” (vers. 3). É a tentação – que todos nós conhecemos muito bem – de fazer dos bens materiais a prioridade fundamental da vida. No entanto, Jesus sabe que “nem só de pão vive o homem” e que a realização do homem não está na acumulação egoísta dos bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3 e sugere que o seu alimento – isto é, a sua prioridade – não é um esquema de enriquecimento rápido, mas é o cumprimento da Palavra (isto é, da vontade) do Pai.
- A segunda (vers. 5-7) leva-nos até ao “pináculo do templo”, onde os frequentadores do santuário podiam desfrutar de uma magnífica vista sobre o vale do Cedron. As palavras do “tentador” (“se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”) sugerem que Jesus poderia ter escolhido um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo espetáculo mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta tentação citando Dt 6,16, e sugere que não está interessado em utilizar os dons de Deus para satisfazer projetos pessoais de êxito e de triunfo humano. “Não tentar” o Senhor Deus significa, neste contexto, não exigir de Deus sinais e provas que sirvam para a promoção pessoal do homem e para que Ele se imponha aos olhos dos outros homens.
- A terceira (vers. 8-10) coloca-nos num “monte muito alto” não identificado, onde se podem ver “todos os reinos do mundo e a sua glória”. Não é necessário dizer que não existe nenhum monte no mundo onde seja possível contemplar tal panorâmica. Estamos, portanto, no domínio da catequese. O quadro sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao estilo dos grandes da terra. No entanto, Ele sabe que a tentação de fazer do poder e do domínio a prioridade fundamental da vida é uma tentação diabólica; por isso, citando Dt 6,13, diz que só Deus é absoluto e que só Deus deve ser adorado. O poder que corrompe e escraviza nunca será, para Jesus, uma escolha a ter em conta.
- As três tentações aqui apresentadas não são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de Deus, de escolher um caminho de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência, à margem das propostas de Deus.
- Mas, para Jesus, ser “Filho de Deus” significa viver em comunhão com o Pai, escutar a sua voz, realizar os seus projetos, cumprir obedientemente os seus planos.
- As respostas de Jesus ao “tentador” mostram claramente qual é o caminho que Ele, desde o início, se propõe seguir. Jesus venceu o combate contra o mal.
- Ele não quer viver para acumular bens, para dominar sobre pessoas, para exibir em seu proveito a grandeza de Deus.
- Jesus propõe-se servir o Projeto de Deus, sem se desviar um milímetro da vontade do Pai. Ao longo da sua vida, diante das diversas “provocações” que os adversários Lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua “opção fundamental” e vai procurar concretizar, com total fidelidade, o projeto do Pai.
- Israel, ao longo da sua caminhada pelo deserto, sucumbiu frequentemente à tentação de ignorar os caminhos e as propostas de Deus.
- Jesus, ao contrário, venceu a tentação de prescindir de Deus e de escolher caminhos à margem dos projetos do Pai.
- De Jesus vai nascer um novo Povo de Deus, cuja vocação essencial é viver em comunhão com o Pai e concretizar o seu projeto para o mundo e para os homens e as mulheres.
- Desse povo, nós fazemos parte...
Importante:
- Finalize sua oração agradecendo e confiando a Deus os frutos que espera colher neste tempo quaresmal...
- Renove os seus propósitos de, como Jesus, vencer as tentações da vida.
- Veja os apelos, as inspirações e moções que o Senhor despertou em seu coração, neste dia...
- Reze a oração da CF-2026:
Deus, nosso Pai,
em Jesus, vosso Filho,
viestes morar entre nós
e nos ensinastes o valor da dignidade humana.
Nós vos agradecemos por todas as pessoas
e grupos que, sob o impulso do Espírito Santo,
se empenham em prol da moradia digna para todos.
Nós vos suplicamos:
dai-nos a graça da conversão,
para ajudarmos a construir uma sociedade
mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho
para todas as pessoas,
a fim de, um dia, habitarmos, convosco,
a casa do céu.
Amém.
- Faça, a seguir, as anotações espirituais...
“Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto” (Mt 4,10)
Pe. Marcelo Moreira Santiago