A liturgia de hoje continua apresentando a missão profética de Ezequiel. Mais uma vez percebemos que aquilo que acontece com o profeta torna-se um sinal para o povo. Sua própria vida, suas experiências e sofrimentos são utilizados por Deus para transmitir uma mensagem. O profeta não fala apenas com palavras; sua existência inteira torna-se anúncio.
No caso da leitura de hoje, Ezequiel é chamado a viver uma situação dolorosa que simboliza os sofrimentos que o povo enfrentará por causa de sua infidelidade. Deus deseja alertar Israel para que reconheça as consequências de suas escolhas e retorne ao caminho da Aliança.
Também nós recebemos pelo Batismo essa missão profética. Somos chamados a ser sinais de Deus no mundo. Muitas vezes as pessoas não escutam sermões, mas observam atitudes. Uma vida coerente, marcada pela caridade, pela oração e pela fidelidade ao Evangelho, torna-se um testemunho que fala mais alto do que muitas palavras.
No Evangelho, encontramos um homem que se aproxima de Jesus com uma pergunta muito importante: “Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”. Essa também é uma das grandes perguntas da humanidade. Todos buscamos a felicidade, o sentido da vida e aquilo que permanece para sempre.
Jesus, porém, ajuda aquele homem a aprofundar sua compreensão. Em primeiro lugar, pergunta por que ele fala sobre o que é bom. Em seguida afirma: “Um só é bom”. Com isso, Jesus recorda que todo bem tem sua fonte em Deus. Muitas vezes queremos definir por nós mesmos o que é certo ou errado, mas a verdadeira medida do bem encontra-se no próprio Senhor.
Depois Jesus corrige discretamente a maneira como a pergunta foi formulada. O homem fala em “possuir” a vida eterna. É uma forma de pensar muito comum também hoje. Às vezes nos relacionamos com Deus quase como numa negociação: fazemos algo esperando receber algo em troca. Contudo, a vida eterna não é um objeto que se possui.
Jesus fala de “entrar na vida”. Trata-se de uma realidade da qual participamos. É uma comunhão com Deus que começa já nesta terra e alcança sua plenitude na eternidade. Não é uma posse, mas uma participação na própria vida divina. Para entrar nessa vida, Jesus recorda a importância dos mandamentos. Não se trata simplesmente de cumprir normas, mas de viver um relacionamento verdadeiro com Deus que se manifesta no amor concreto ao próximo.
Quando o homem pergunta quais mandamentos deve observar, Jesus menciona aqueles ligados ao relacionamento com os irmãos: não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, honrar pai e mãe. E conclui com uma síntese magnífica: amar o próximo como a si mesmo. É interessante notar que Jesus parte do pressuposto de que o amor a Deus já é o fundamento de toda a vida moral. Quem ama verdadeiramente o Senhor não pode ignorar o irmão.
Neste momento, Mateus identifica aquele homem como jovem. A juventude, na Bíblia, muitas vezes simboliza potencialidade, futuro e capacidade de decisão. Aquele jovem ainda tem toda uma vida pela frente e se encontra diante de uma escolha fundamental. Ele afirma ter observado os mandamentos e pergunta: “O que me falta ainda?”. Percebe que uma vida correta, embora importante, não esgota o chamado de Deus.
Então Jesus faz um convite exigente e maravilhoso: vender seus bens, distribuí-los aos pobres e segui-Lo. Não se trata apenas de abrir mão das riquezas, mas de colocar Cristo no centro da própria vida. A proposta de Jesus não é uma perda, mas um caminho para a liberdade. O despojamento abre espaço para que Deus ocupe o primeiro lugar.
O jovem, porém, vai embora triste porque possuía muitos bens. O problema não estava na quantidade de riquezas, mas no apego que ele tinha a elas. Seus bens acabaram se tornando um obstáculo para sua resposta vocacional.
O Evangelho termina sem nos dizer o restante da história. Não sabemos se algum dia aquele jovem voltou e respondeu ao convite do Senhor. Talvez justamente porque a pergunta permanece aberta para cada um de nós. E nós? O que responderíamos se Jesus nos pedisse para deixar de lado aquilo que nos impede de segui-Lo mais plenamente?
Pe. Thiago José Gomes