A primeira leitura de hoje apresenta uma forte reflexão sobre o orgulho humano. Através do profeta Ezequiel, Deus denuncia a atitude de quem se considera autossuficiente e passa a agir como se fosse um deus.
O orgulho leva a pessoa a colocar-se no centro de tudo. Ela deixa de reconhecer que recebeu a vida, os talentos e as oportunidades como dons. Passa a acreditar que tudo depende apenas de si mesma e que não precisa de ninguém, nem mesmo de Deus. Mas essa falsa visão não muda a realidade. Por mais poderoso, inteligente ou influente que alguém seja, continua sendo criatura. Não somos deuses. Somos seres humanos chamados a viver em humildade diante daquele que é o verdadeiro Senhor da história.
Por isso o profeta anuncia também as consequências do orgulho. Aqueles que se exaltam serão humilhados. Não porque Deus tenha prazer em castigar, mas porque toda mentira acaba sendo desmascarada pela verdade.
No Evangelho, Jesus retoma o diálogo iniciado no dia anterior com o jovem rico. Após sua partida, o Senhor afirma que é difícil para um rico entrar no Reino dos Céus. Em seguida utiliza uma imagem provocativa: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.
Jesus não está condenando a riqueza em si mesma. Seu ensinamento é sobre o perigo do apego. Quando os bens ocupam o lugar de Deus, o coração perde a liberdade necessária para acolher o Reino. Os discípulos ficam espantados. Na mentalidade da época, a prosperidade material era frequentemente interpretada como sinal da bênção divina. Se até os ricos têm dificuldade para entrar no Reino, quem poderá salvar-se?
A resposta de Jesus é um dos grandes ensinamentos do Evangelho: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”. A salvação não é conquista humana. Ninguém se salva por seus méritos ou capacidades. A salvação é graça de Deus, acolhida pela fé e vivida na conversão diária.
Pedro então toma a palavra e recorda que os discípulos deixaram tudo para seguir Jesus. O que receberão em troca? Jesus responde prometendo uma participação especial em seu Reino e acrescenta uma palavra de esperança para todos os discípulos de todos os tempos: quem deixar qualquer coisa por amor a Cristo receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.
Isso não significa uma recompensa material. Jesus fala da riqueza da comunhão com Deus, da fraternidade da Igreja, da paz do coração e da alegria de viver segundo o Evangelho. O Senhor conclui afirmando que muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros.
No Reino de Deus, os critérios são diferentes dos do mundo. Aquilo que parece sucesso aos olhos humanos nem sempre corresponde ao que tem valor diante de Deus. O que conta é a fidelidade, a humildade e o amor.
Pe. Thiago José Gomes