Neste Terceiro Domingo do Tempo Comum, somos envoltos pela luz da Palavra de Deus que irrompe nas trevas, anunciando um tempo novo e um convite irrecusável. As leituras de hoje nos orientam para o início do ministério público de Jesus, chamando-nos à unidade em Cristo e a uma conversão que transforma não apenas corações, mas comunidades inteiras, introduzindo-nos no Reino que já está próximo.
A primeira leitura, extraída do profeta Isaías, ressoa como um hino de esperança em meio à escuridão. Fala de um povo que, embora andasse "nas trevas", na penumbra da aflição e da opressão, vislumbrou uma "grande luz". Esta não é meramente uma luz física, mas a manifestação da própria presença salvadora de Deus, que se prepara para libertar e encher de alegria aqueles que sofriam. É significativa a menção da Galileia, um território muitas vezes marginalizado e desconsiderado, como o berço de onde esta luz começará a brilhar. Esta profecia antecipa de maneira sublime o palco da atuação de Jesus, que iniciará seu ministério precisamente nessa região. É um lembrete poderoso de que Deus escolhe os lugares e as pessoas mais inesperadas para revelar Sua glória, transformando a escuridão mais profunda em um espaço de renovada esperança e um novo começo para a humanidade.
O Salmo 26 eleva-se como um grito de confiança inabalável na proteção divina. O salmista, em meio a suas tribulações, proclama o Senhor como sua "luz e salvação", dissipando todo temor e incerteza. Seu maior anseio não é por riquezas ou poder, mas pela intimidade com Deus, expressa no desejo de habitar em Sua casa, contemplar Sua beleza e meditar em Seu templo. Este salmo, com sua resposta que ecoa a certeza da presença libertadora de Deus, nos convida à perseverança na fé. É um encorajamento para "esperar no Senhor e ser corajoso", pois a luz que Ele oferece é a fonte inesgotável de toda a nossa segurança, a qual se manifesta através do seu amor que é nosso porto seguro e uma esperança que nunca falha.
Na segunda leitura, São Paulo, com um coração pastoral e uma perspicácia teológica afiada, confronta a alarmante fragmentação na comunidade de Corinto. As disputas e a formação de "partidos" – uns se declarando de Paulo, outros de Apolo, outros de Cefas (Pedro) – revelam uma perigosa idolatria de personalidades humanas, desviando o foco do verdadeiro alicerce da fé. Com uma pergunta retórica incisiva – "Será que Cristo está dividido?" – Paulo revela a gravidade da situação, pois qualquer divisão na comunidade é, em última instância, uma divisão no próprio Corpo de Cristo. Ele lembra que a única base da fé é Jesus Cristo, e o batismo é realizado em Seu nome e não em nome de qualquer apóstolo.
A sabedoria humana, com suas retóricas persuasivas e argumentos intelectuais, é posta em segundo plano; a mensagem central do Evangelho é o poder transformador da cruz de Cristo, que para os gregos era loucura e para os judeus, escândalo. A crucificação é a suprema manifestação do amor de Deus, e é em torno dela que a comunidade deve se unir. Assim, esta leitura é um pungente apelo à unidade na diversidade dos carismas, um convite a superar as vaidades humanas e a centrar nossa vida e nossa fé naquele que é o único e indivisível Salvador. Paulo nos convida a uma conversão que nos leve a discernir a sabedoria divina na "loucura" da cruz, rejeitando as divisões que ofuscam a glória de Cristo.
O Evangelho de Mateus nos situa no ponto crucial do início do ministério público de Jesus. Ao saber da prisão de João Batista, Jesus se retira para a Galileia, cumprindo a profecia de Isaías sobre a "luz" que brilharia naquela região. É ali, em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, que Ele começa sua pregação com uma mensagem de urgência e esperança: "Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo."
Estas palavras não são apenas um aviso, mas um convite direto e transformador para cada um de nós. Ao nos encontrarmos com Jesus, somos introduzidos à vida verdadeira, onde as falsas promessas do mundo perdem seu valor e a superficialidade de muitos de nossos apegos se revela. Mas, como viver essa transformação concretamente em nosso dia a dia?
Pensemos, por exemplo, em nosso ambiente profissional, acadêmico ou até mesmo em nossas relações familiares e sociais. O convite à conversão se traduz em reconhecer e nos afastar de atitudes que nos diminuem e ferem o próximo: a fofoca que dissemina discórdia, a impaciência com um colega, a competitividade desmedida que ignora a dignidade do outro, ou a preguiça que compromete o nosso dever e a nossa missão. O "arrependei-vos" de Jesus é precisamente essa decisão de mudar, buscando ser mais pacientes, honestos e colaborativos, construindo pontes em vez de muros, e vivendo a ética do Reino na prática.
Logo em seguida, Jesus estende o Seu chamado pessoal a Simão (Pedro) e André, Tiago e João. Ele os encontra diretamente em seu trabalho de pescadores, não esperando que eles venham a Ele em um lugar sagrado, mas os alcançando em sua realidade mais concreta. Jesus os olhou com critérios divinos, penetrando além das aparências, escolhendo quem Ele queria e quem se dispunha a segui-Lo, transformando suas vidas de forma radical. Ele não mudou o ofício desses homens – eles continuaram sendo "pescadores" – mas, sim, o foco e a dimensão de sua missão. De "pescadores de peixes", voltados para o sustento material, eles se tornaram "pescadores de homens", dedicados a guiar almas para o Reino de Deus, dando um novo propósito, uma nova dignidade e um sentido transcendente às suas vidas. A resposta deles é imediata e radical: "imediatamente deixaram as redes e o seguiram", um modelo de prontidão e confiança.
A pergunta que resta é: como tem sido meu encontro com o Senhor? Já percebi que Ele veio até mim, em meu próprio cotidiano, e continua a chamar-me para segui-Lo? Este chamado visa transformar o dia a dia em um lugar de testemunho autêntico e de graça abundante. A proximidade do "Reino dos Céus" não é uma ameaça distante, mas uma promessa de vida plena que se concretiza aqui e agora, convocando-nos a uma resposta generosa e comprometida.
Que este convite de Jesus – "Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo" – ressoe profundamente em nossos corações. Que a luz que Ele nos oferece nos capacite a superar as divisões e a responder com prontidão e generosidade ao Seu chamado. Que nossa conversão se manifeste em atitudes concretas de amor ao próximo e de serviço ao Reino, transformando cada aspecto de nossa vida em uma expressão viva da graça divina, tornando-nos verdadeiras testemunhas da presença de Deus neste mundo.
Pe. Thiago José Gomes