RETIRO QUARESMAL ONLINE
DIA 15 DE MARÇO – DOMINGO
“Creio, Senhor”
(Jo 9,38)
Leituras: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a; Sl 22; Ef 5,8-14; Jo 9,1-41.
PEDIR A GRAÇA DA SEMANA
Que o Senhor conceda a graça de que eu sinta vergonha
e dor pelos próprios pecados e me arrependa sinceramente,
de modo que, reconciliado com Deus e com o próximo,
eu possa amar e seguir a Cristo de perto,
fazendo a experiência da verdadeira liberdade
dos filhos e filhas de Deus.
INTRODUÇÃO
- Chegamos à quarta semana a Quaresma, tempo litúrgico marcado pelo convite “alegra-te”, pois a Páscoa do Senhor já se aproxima.
- Nesta etapa da caminhada, somos chamados a viver a experiência do “já e ainda não”.
- A Páscoa ainda não chegou, mas já se anuncia, revelando-nos que Cristo é a Luz do mundo.
- Jesus nos ensina que a fé nasce da confiança em sua Palavra, capaz de curar nossas enfermidades e revelar a face amorosa do Pai.
- Assim, Jesus coloca a humanidade diante de uma decisão: acolher ou rejeitar a sua mensagem.
- A salvação é oferecida a todos, mas só frutifica no coração aberto e disponível à sua Palavra libertadora das cegueiras e enfermidades presentes na humanidade.
- No contexto da CF-2026, temos presente que toda pessoa que acolhe a Palavra encarnada, o próprio Jesus, compromete-se, solidariamente a levar esperança aos desabrigados e desamparados da sociedade, defendendo e apoiando políticas públicas de inclusão social.
- Cada gesto de acolhida, justiça e solidariedade revela ao mundo a face compassiva da Trindade misericordiosa.
- A Quaresma é oportunidade para ordenar os afetos, ou seja,libertar-se das afeições desordenadas que desorganizam avida, geram conflitos, discórdias e egoísmos e afetam as nossas relações fundamentais com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a criação.
- Este é o convite desta semana: sentir dor e vergonha dos nossos pecados e buscar, pelo arrependimento, a conversão sincera...
EVANGELHO DE JESUS CRISTO SEGUNDO
SÃO JOÃO 9.1-41
- Meditando a Palavra de Deus
- Encontre um lugar tranquilo. Acomode-se numa posição confortável... Procure aquietar a sua mente e o seu coração.
- Lembre-se de iniciar com a sua oração preparatória, fazendo o seu pedido da graça e, em seguida, leia e releia o texto proposto, com calma.
- Deixe-se tocar pelas palavras de Jesus, saboreando-as sem pressa, numa atitude de silêncio orante, permanecendo diante d’Ele e permitindo que a sua vida seja inundada pela presença e pela sabedoria divina...
- Vamos imaginar uma viagem. Partimos de onde estamos e seguimos até o lugar onde Jesus se encontra.
- É tempo da festa das Tendas e as ruas estão cheias de movimentos, vozes e cores...
- De repente, percebemos que Jesus passa exatamente onde estamos...
- Ele para diante de um homem cego de nascença que pedia esmolas à beira do caminho.
- Os discípulos, surpresos, não compreendem o gesto do Mestre. Nós também nos aproximamos, curiosos, para ouvir a conversa.
- Um deles questiona Jesus sobre o pecado: de quem seria a culpa daquela cegueira?
- Mas Jesus mostra que não se detém no passado e sim naquilo que pode ser feito agora, no presente.
- Com simplicidade, Jesus cospe no chão, mistura saliva com barro e unge os olhos do cego. Em seguida, pede que ele vá lavar-se na piscina de siloé.
- O homem obedece e, para espanto de todos, inclusive o nosso, volta enxergando.
- Diante de nós, acontece o impossível: o cego recupera a visão...
- Jesus então se revela como a Luz do mundo.
- Muitos se maravilham, reconhecendo que somente alguém vindo de Deus poderia realizar tal prodígio.
- Outros, porém, sobretudo as lideranças, reagem com indignação, recusam-se a aceitar o milagre e expulsam da comunidade o homem que havia sido curado.
- Como compreender tal atitude?
- Mais tarde, Jesus reencontra aquele homem. Olha-o nos olhos e se apresenta, dizendo quem Ele é.
- E o que antes era cego, agora, iluminado pela fé, professa com simplicidade e verdade: “Creio, Senhor” (Jo 9,38).
- Que Deus nos cure de nossas tantas cegueiras e que possamos como aquele homem dizer, à luz da fé, “Creio, Senhor” ...
- Rezando à luz da Palavra de Deus
- Jesus se apresenta como “a luz” que vem iluminar o mundo e libertar os homens e as mulheres das “trevas”.
- É essa a “obra” que o Pai Lhe confiou e na qual Ele irá trabalhar.
- Quem adere a Jesus, recebe o seu batismo e acolhe as suas indicações, envereda por um caminho novo, belo, desafiante, luminoso, onde progressivamente encontra a liberdade, a realização, a vida em plenitude.
- A pessoa que aceita viver na luz se torna um ser Novo, um homem ou uma mulher que concretiza o projeto original que Deus tinha quando criou os seres humanos.
- Deixemo-nos tocar pela luz de Deus, que ela dissipe as trevas, as escuridões do nosso coração...
Oração
Senhor Jesus, Luz do mundo,
que viestes para que os cegos vejam,
olhai para todos nós, homens e mulheres.
Reconhecemos que muitas vezes somos
como o cego de nascença:
envoltos nas trevas dos nossos preconceitos e pecados.
Vós sois a luz que ilumina o coração
e devolve a verdadeira visão.
Obrigado, Senhor, pelo batismo que unge
e lava os nossos olhos para ver a verdade,
curando a nossa cegueira espiritual
e chamando-nos à missão.
Com a vossa graça, queremos reparar a cegueira
de um mundo que se recusa a ver
a vossa luz e amor. Senhor,
"fazei de mim instrumento de união e reconciliação,
para que minhas palavras transmitam
amor, verdade e paz".
Que o vosso Espírito Santo nos torne
missionários da vossa visão,
capazes de enxergar em cada pessoa,
especialmente nos marginalizados,
um irmão e irmã a ser amado.
Eu creio, Senhor, e vos adoro.
Amém.
Para refletir: Como me coloco diante de Jesus? Sou capaz de acolhê-lo, ou dou mostras de rejeitá-lo? Quais são as minhas cegueiras? Permito que Deus faça brilhar em mim a sua Luz? ...
- Contemplando a Palavra de Deus
- Alguns estudiosos dividem o Evangelho segundo João em duas partes: o “Livro dos Sinais” (Jo 4,1-11,54) e o “Livro da Hora” (Jo 11,55-19,42).
- No “Livro dos Sinais” nos são apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água (Jo 4,1-5,47), o pão (Jo 6,1-71), a luz (Jo 7,1-9,41), o pastor (Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem e uma Mulher que vivem segundo Deus.
- No “livro da Hora”, o Messias se encaminha para a cruz e oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens e às mulheres como devem viver e como devem amar.
- Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.
- A narrativa da cura de um cego de nascença integra o “Livro dos Sinais”.
- É a terceira “catequese” que esse “livro” nos oferece. Mostra como Jesus, “luz” de Deus a brilhar no mundo, veio nos libertar da cegueira que nos impede de caminharmos como pessoas livres.
- O autor do Quarto Evangelho coloca essa catequese no contexto da festa judaica de “Sukkot”, a festa das tendas” (Jo 7,2).
- Ela era celebrada no mês de Tishri (início do outono), durava oito dias. Primitivamente era uma festa agrícola, que marcava o final das colheitas.
- Durante os oito dias que a festa durava, os judeus viviam em tendas (ou cabanas) feitas de tábuas de madeira, com teto de folhas e ramos.
- Mais tarde, a festa foi ligada com a caminhada dos hebreus pelo deserto e as cabanas evocavam o tempo em que o povo viveu em tendas, durante a jornada em direção à Terra Prometida.
- Era uma das festas mais importantes do calendário religioso judaico. Celebrava-se a proteção de Deus durante o Êxodo, agradeciam-se as colheitas e anunciavam-se as bênçãos da era do Messias.
- Durante os dias da festa, o Templo era um centro privilegiado de encontro dos peregrinos que vinham de todos os cantos do país.
- Um dos rituais mais populares era o acendimento de quatro grandes candelabros gigantescos no Átrio das Mulheres, no Templo de Jerusalém, junto das caixas das ofertas.
- As luzes brilhavam por toda a cidade, num espetáculo extraordinário de alegria e de fé. A afirmação de Jesus “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12) encaixa perfeitamente neste cenário.
- As figuras centrais do episódio narrado no Evangelho deste domingo são Jesus e um cego de nascença.
- Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então.
- As deficiências físicas eram consideradas, pela teologia oficial, como resultado do pecado.
- Os rabis chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência – se essa deficiência era o resultado de um pecado dos pais, ou se resultava de um pecado cometido pela criança no ventre da mãe.
- Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa.
- A cegueira, sendo uma deficiência que impedia o homem de estudar a Lei, era considerada o resultado de um pecado especialmente grave.
- Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.
- Antes de se cruzar com Jesus, o cego é um homem prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. Depois, encontra-se com Jesus e recebe a “luz”...
- De fato, do encontro com Jesus, resulta sempre uma proposta de vida nova para o ser humano.
- A narrativa descreve, com simplicidade, mas também de uma forma muito bela, a progressiva transformação que aquele homem vai sofrendo.
- Nos momentos imediatos à cura, ele não tem ainda grandes certezas, mas a “luz” que agora brilha na sua vida o amadurece progressivamente e o ajuda a ver as coisas cada vez com mais nitidez.
- Confrontado com os dirigentes e intimado a renegar a “luz” e a liberdade recebidas, ele argumenta com agilidade e inteligência, joga com a ironia, recusa-se a regressar à escravidão: mostra o homem adulto, maduro, livre, sem medo, de convicções firmes…
- A luz que Jesus oferecida àquele homem o faz crescer, atingir a estatura do Homem Novo.
- Finalmente, a narrativa mostra o estádio final dessa caminhada progressiva: a adesão plena a Jesus (Jo 9,35-38).
- Encontrando o homem que fora cego e que agora vê, Jesus o convida a aderir ao “Filho do Homem”: “acreditas no Filho do Homem?”(Jo 9,35).
- A resposta do ex-cego é a adesão total: “creio, Senhor” (Jo 9,38). O título “Senhor” (“kyrios”) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus, o Senhor glorioso.
- Depois, aquele homem curado se prostrou e adorou Jesus: adorar significa reconhecer Jesus como o Projeto de Homem e de Mulher Novos que Deus apresenta àqueles que aderirem a Ele e segui-lo.
- Neste percurso está simbolicamente representado o “caminho” do catecúmeno.
- O primeiro passo nesse “caminho” é o encontro com Jesus; depois, o catecúmeno manifesta a sua disponibilidade para aderir à “luz” e recebe o batismo.
- À medida que vai consolidando e amadurecendo a sua descoberta torna-se, progressivamente, uma pessoa livre, sem medo, seguro daquilo que quer para a sua vida.
- Esse “caminho” desemboca na adesão total a Jesus, no reconhecimento de que Ele é o Senhor que conduz a história e que tem uma proposta de vida nova para o homem e a mulher… Depois disto, ao cristão nada mais interessa do que seguir Jesus.
- A narrativa do autor do Quarto Evangelho também explicita a missão de Jesus.
- Deus criou o homem para ser livre e feliz; mas o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, dominaram o coração do ser humano, cegaram-no e frustraram o Projeto de Deus.
- Então Deus enviou o Seu Filho ao encontro dos homens e das mulheres.
- A missão de Jesus será libertar o ser humano das trevas em que ele se encerrou e fazê-lo viver na “luz”.
- Trata-se de uma nova criação… Da ação de Jesus irá nascer um Homem e a Mulher Novos, libertos do egoísmo e do pecado, vivendo na liberdade, a caminho da vida em plenitude.
- Você está disposto a fazer este caminho? Deixe-se tocar pela Luz que é Jesus... Iluminado n’Ele, seja luz para os seus irmãos e irmãs...
Importante:
- Agradeça a Deus a graça deste encontro e reconheça-se profundamente amado por Deus...
- Renove os seus propósitos de se deixar iluminar por Jesus, permitindo que Ele cure as suas cegueiras ...
- Conclua a sua oração pedindo as luzes do Espírito Santo... Reze um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e dê glorias a Deus...
- Faça, a seguir, as anotações espirituais...
“O ser humano vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”
(Sm 16,9)
Pe. Marcelo Moreira Santiago