Celebramos hoje, dentro do Tempo Pascal, a festa de São Matias, Apóstolo. Este foi considerado digno por Deus de ocupar um lugar entre os doze primeiros chamados por Cristo e, assim, poder anunciar, com o seu testemunho, as alegrias da Ressurreição. Homem fiel, Matias permaneceu junto de Jesus desde o início de sua missão até a Ascensão do Senhor aos céus. Por ter permanecido junto do Mestre durante todo esse tempo, foi considerado digno de ocupar o lugar deixado pelo traidor e, assim, dar continuidade à atividade apostólica no mundo.
É justamente sobre a importância de permanecer fiel até o fim que Jesus quer nos exortar no Evangelho de hoje. Quando contemplamos a estrutura do quarto Evangelho, vemos que o verbo “permanecer” aponta para a dinâmica do discipulado, mostrando que, quando nos dispomos a seguir o Senhor, não basta apenas estar com Ele: é preciso permanecer n’Ele. Essa condição não significa mera estabilidade, mas trata-se de uma disposição constante de abrir-se à graça de Deus e cultivar no coração os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus.
O amor do Senhor age em nosso coração à medida que nos abrimos à sua ação benevolente em nossa vida. Quando nos dispomos a permanecer com Ele, somos capacitados para edificar neste mundo a sua obra redentora, que restaura todas as coisas. Se olharmos para as figuras de Judas e Matias, veremos diante de nós dois modelos de discípulos que podem iluminar o modo como queremos e devemos caminhar no seguimento do Mestre.
Judas, em sua ambição, deixou-se levar pelas próprias inclinações e, mesmo estando com Cristo, não soube compreender a dinâmica de sua missão. Queria um Messias segundo os seus critérios; não suportava a ideia de ver o Deus encarnado dedicando tempo aos pobres, curando os doentes e libertando tantos cativos do mal. Judas queria mais: queria ver Jesus ocupar o lugar de rei neste mundo. Contudo, não foi para isso que Cristo veio, mas para anunciar a Boa-Nova aos pobres e construir um Reino de paz.
Por não conseguir lidar com essa frustração, Judas preferiu juntar-se aos perseguidores de Jesus. Sua atitude revela aquilo que acontece com os que não são capazes de acolher o Mestre e a sua proposta: acabam preferindo calar a voz do Evangelho, porque ela nos interpela a viver de forma diferente da lógica que impera neste mundo. Também em nossos tempos há muitos que, desejando um Cristo moldado às próprias medidas e não o encontrando, preferem silenciar a sua voz em suas vidas e deixar-se conduzir pelas próprias pretensões.
Matias, ao contrário, soube permanecer. Soube ouvir a voz do seu Senhor e, assim, tornou-se pronto para ocupar um lugar que outrora não era seu, mas do qual se fez digno por sua fidelidade. É isso que o Mestre espera também de nós hoje: que saibamos permanecer junto d’Ele, mesmo quando as circunstâncias não forem favoráveis. Não podemos alimentar nossa espiritualidade e nosso discipulado apenas com participações esporádicas na vida de fé; é preciso cultivar uma proximidade contínua com o Senhor da Vida.
Assim, queremos pedir em oração: “Dai-nos, Senhor, o espírito de fortaleza e fidelidade que concedestes ao vosso servo São Matias, para que nos tornemos dignos de permanecer unidos a vós e sempre dispostos a construir, em comunhão com a vossa Igreja, um caminho pelo qual a vossa Palavra seja cada vez mais conhecida. Que o nosso agir seja sempre marcado pela docilidade a Vós, de modo que sejamos sinais da vossa graça na vida de nossos irmãos e irmãs. Amém.”
Seminarista Rômulo.