“Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Na primeira leitura de hoje, Paulo nos ensina o que significa a liberdade de espírito, que nos torna capazes de desapegar-nos das realidades passageiras deste mundo para desejar, acima de tudo, aquilo que Deus quer para nós. O Apóstolo demonstra ter alcançado tamanha intimidade com Jesus que consegue alegrar-se diante das duas possibilidades que se apresentam: continuar vivendo para ser presença de Cristo no meio dos homens ou morrer para estar definitivamente com o Senhor.
Somente aqueles que se configuram ao coração de Jesus são capazes de adotar uma postura assim diante da vida. Afinal, enquanto permanecemos excessivamente apegados às realidades passageiras, dificilmente conseguimos acolher os bens que não passam. A santidade alcançada por Paulo não foi fruto do acaso, mas nasceu da profunda sede de Deus que alimentava seu coração, levando-o a buscar uma união cada vez mais íntima com o Senhor por meio de seu apostolado e da entrega de sua vida à missão evangelizadora.
Essa união com Jesus permitiu que Paulo adotasse uma postura de liberdade até mesmo diante daqueles que anunciavam Cristo movidos por interesses pessoais. Sua atitude nos ensina a olhar para além das intenções humanas e a reconhecer o bem que pode ser realizado, mesmo quando não acontece da maneira como gostaríamos. Quantas vezes temos dificuldade em acolher aqueles que, em nossas comunidades, não compreendem ou não realizam a ação evangelizadora conforme nossas expectativas! É evidente que a comunhão entre os fiéis deve ser sempre buscada e promovida; contudo, quando Cristo é verdadeiramente anunciado, precisamos superar as rivalidades e os interesses pessoais, colocando o Evangelho acima de nossas preferências.
Só alcançaremos essa liberdade de espírito que admiramos em Paulo quando aprendermos a desapegar-nos das honras e dos reconhecimentos deste mundo. No Evangelho de hoje, Jesus nos ensina que o lugar que devemos desejar não é o dos primeiros assentos, reservados àqueles que buscam prestígio, mas o último lugar, próprio de quem reconhece a própria pequenez e sabe que tudo recebe da misericórdia de Deus. O discípulo de Cristo não precisa disputar posições para demonstrar seu valor, pois compreende que a verdadeira grandeza está em servir, e não em ser servido.
Essa lição de Jesus também se dirige a nós. Em uma sociedade que tantas vezes valoriza as aparências, a exposição e a busca por reconhecimento, somos convidados a ocupar, com humildade, os últimos lugares no palco da vida. Isso não significa esconder os dons que Deus nos concedeu, mas colocá-los a serviço dos irmãos, sem transformar a missão em ocasião para buscar aplausos ou alimentar a vaidade. Afinal, o importante não é aparecer diante dos homens, mas permanecer fiel diante de Deus.
Por isso, mais do que disputar os primeiros lugares, somos chamados a fazer de nossa vida um serviço humilde e generoso. Em nossas comunidades, isso significa trabalhar sem exigir elogios, acolher sem fazer distinções, colaborar sem buscar protagonismo e alegrar-nos com o bem realizado pelos outros. Quem vive assim não precisa lutar para conquistar a honra dos homens, pois encontra sua alegria em servir a Cristo. E, quando chegar o momento de nos apresentarmos diante do Senhor, que não sejam os títulos, os aplausos ou os lugares que ocupamos neste mundo a testemunhar quem fomos, mas o amor com que servimos e a fidelidade com que vivemos o Evangelho. Afinal, para quem fez de Cristo o sentido da própria existência, viver é servir ao Senhor e morrer é encontrar-se definitivamente com Ele.
Seminarista Rômulo Ribeiro