Hoje a Igreja celebra a memória de Santo Antão, abade, um grande testemunho de fé, simplicidade e busca radical por Deus. Considerado um dos pais do monaquismo cristão, Santo Antão foi precursor da vida eremítica, uma forma de viver centrada na oração, no silêncio e na escuta atenta do Senhor. Ao se retirar para o deserto, ele não fugiu do mundo, mas escolheu colocar Deus no centro de sua vida. Sua história nos recorda que toda pessoa chamada à comunhão com Deus se torna também sinal e testemunha para os irmãos.
A Liturgia da Palavra deste dia nos ajuda a aprofundar o tema do chamado e da resposta humana à iniciativa amorosa de Deus. Em todas as leituras, percebemos que é o Senhor quem dá o primeiro passo, escolhe, chama e capacita, convidando cada um a confiar mais Nele do que em si mesmo.
Na primeira leitura, acompanhamos a escolha e a unção de Saul como rei de Israel. O texto apresenta sua origem familiar e destaca a presença do profeta Samuel como mediador da vontade divina. Não se trata de uma escolha baseada apenas em critérios humanos, como prestígio ou poder, mas de uma resposta ao chamado que vem de Deus. A unção lembra que o povo pertence ao Senhor: o rei não é dono, mas servidor, chamado a conduzir o povo com humildade, obediência e espírito de serviço. Esse relato nos convida a refletir também sobre nossas responsabilidades na Igreja e na sociedade, recordando que toda autoridade deve ser vivida como serviço.
O salmo prolonga essa mensagem ao proclamar que a verdadeira alegria e a força do rei estão no Senhor, e não em suas próprias capacidades. É Deus quem sustenta, orienta e dá sentido à missão confiada. Essa oração nos ajuda a reconhecer que nossa segurança não está no que possuímos ou fazemos, mas na confiança em Deus que caminha conosco.
No Evangelho, somos convidados a contemplar um dos chamados mais marcantes: o chamado de Levi, também conhecido como Mateus. Jesus o encontra em seu ambiente cotidiano, no exercício de uma profissão desprezada e marginalizada pela sociedade daquele tempo. O texto nos diz que Jesus “viu” Levi. Esse olhar é profundo, cheio de misericórdia e compaixão. Não é um olhar que julga ou condena, mas que conhece a história, as fragilidades e as feridas da pessoa, e ainda assim a ama.
Ao sentir-se conhecido e acolhido por esse amor, Levi responde imediatamente ao chamado de Jesus e passa a segui-lo. Sua vida é profundamente transformada. A experiência do encontro com Cristo não o fecha em si mesmo; pelo contrário, desperta nele o desejo de levar outros a fazerem a mesma experiência. Por isso, ele convida seus companheiros, desejando que todos possam encontrar-se com o Mestre e experimentar a alegria do perdão e da misericórdia.
Como acontece tantas vezes, surgem críticas e murmurações. Alguns olham apenas para o passado ou para a profissão das pessoas, sem compreender a grandeza do amor de Deus. Diante disso, Jesus revela o coração de sua missão: Ele veio para aqueles que reconhecem sua necessidade de salvação. Suas palavras nos lembram que ninguém está excluído do amor de Deus e que todos, sem exceção, precisamos de sua misericórdia.
A Palavra de hoje nos convida a deixar-nos olhar por Jesus, a acolher seu chamado e a confiar em seu amor. Inspirados pelo testemunho de Santo Antão, somos chamados a buscar uma vida mais simples, centrada em Deus, e a responder com generosidade, permitindo que o Senhor transforme nosso coração e nos envie como sinais vivos de sua presença no mundo.
Pe. Thiago José Gomes