A Palavra de Deus nos conduz hoje por dois caminhos que se encontram no coração humano: a responsabilidade diante do pecado e a abertura à fé. Na primeira leitura, Davi reconhece que errou. O recenseamento, mais do que um simples cálculo, revela a tentação de confiar nos números, na força humana e no poder, esquecendo-se de que é o Senhor quem sustenta o povo. O mais belo, porém, não é apenas o arrependimento de Davi, mas sua intercessão: ele se coloca no lugar do povo e assume a culpa. O rei se faz pastor, disposto a sofrer para que as ovelhas não sejam destruídas. Aqui já se desenha a lógica do verdadeiro líder segundo o coração de Deus: aquele que não se protege, mas se responsabiliza.
O salmo ecoa essa experiência de misericórdia: feliz não é quem nunca caiu, mas quem teve a coragem de confessar o pecado e confiar no perdão do Senhor. Deus não se cansa de perdoar; o que muitas vezes falta é um coração sincero que se deixe alcançar por sua graça.
No Evangelho, Jesus enfrenta outra forma de fechamento: não a do pecado reconhecido, mas a da fé recusada. Em Nazaré, sua terra, Ele é visto apenas como “o carpinteiro”. O excesso de familiaridade impede o reconhecimento do mistério. A incredulidade fecha as portas e limita a ação salvadora de Deus. Não porque Jesus não queira agir, mas porque o coração humano se torna incapaz de acolher.
Assim, a Palavra nos provoca: ou nos fechamos em nós mesmos, como Nazaré, ou nos abrimos à misericórdia, como Davi arrependido. Onde há humildade e fé, Deus age; onde há orgulho e dureza, até os milagres encontram resistência.
Para a reflexão pessoal:
1. À semelhança de Davi, sou capaz de reconhecer meus erros com humildade e assumir minhas responsabilidades diante de Deus e dos irmãos, ou prefiro justificar-me e apontar culpados?
2. Como os habitantes de Nazaré, não corro o risco de me acostumar com Jesus, ouvindo sua Palavra sem deixar que ela transforme verdadeiramente minha vida?
Seminarista Mirosmar Gonçalves