Comunidades


Nossa Senhora do Rosário


Nossa Senhora do RosárioEndereço: Praça do Rosario S/N
Bairro: Rosário
Celebrações Litúrgicas:

1ª Sexta-feira do mês às 19h;

Domingos - 08h e 18h


História:

Trata-se de uma história bonita e instigante que, mesclando esforço perseverante e confiança na ação divina, foi protagonizada por esta comunidade, hoje integrante da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

Contratada em 1752, a oficina do mestre de obras José Pereira dos Santos ergueu em pedra e cal a Capela Nova do Rosário, que foi entregue à Confraria em 10 de fevereiro de 1756, a despeito da ausência de alguns arremates, além do entulho da construção ter sido amontoado bem defronte à igreja... Após a conclusão desses detalhes, em dezembro de 1758, sendo considerado apto para a celebração do culto religioso, o templo foi bentoemempolgante festa.

Foi uma conquista crucial, mas que precisava ser sucedida pela realização de muitas obras de acabamento. Novamente, os Irmãos do Rosário não se deixaram intimidar: já em 1757, a Confraria contratou o mestre carpinteiro Sebastião Martins da Costa, que, entretanto, não se mostrou tão eficaz em seu serviço como seu colega construtor. As obras de carpintaria, que deveriam durar quatro anos, prolongaram-se até março de 1764, mas o mais complicado foram as torres, que ainda estavam inacabadas em 1770.

Edificadas depois do prédio da Capela ter sido levantado, as torres foram feitas de adobe e, obviamente, mostraram-se sem resistência para suportar objetos muito pesados, como o do sino, posteriormente suspenso do lado direito. Podemos, então, entender o porquê das torres terem necessitado periodicamente de reparos até os dias de hoje...

No mesmo ano de 1770, as obras de talha do altarmor foram assumidas pelo famoso escultor Francisco Vieira Servas. Porém, os custos desse serviço mostraram-se muito elevados para os cofres da Irmandade, impedindo com isso a fabricação imediata de um sino. Apenas em 1793 foi encomendada sua manufatura, concluída em 1798, mas... com defeito - ele apresentava uma trinca!

A Irmandade do Rosário, todavia, esse e outros problemas com despreendimento: não só determinou que o sino fosse refundido, como, tempos depois, decidiu vender alguns objetos de prata para promover o douramento da Capela, encomendado ao famoso pintor Manuel da Costa Ataíde. Em 1826, Ataíde fez a entrega dessas obras de ornamentação da Capela Nova e aceitou realizar a pintura do forro, que representa a Assunção de Maria.

Para dar conta de toda essa empreitada, os Irmãos do Rosário contaram com os préstimos de alguns senhores brancos, pertenciam à elite da sociedade minei ra: eram impor tantes comerciantes, mineradores, militares, clérigos e juristas... Embora não se possa desconsiderar o interesse de obtenção de prestígio social, existente em tais gestos de auxílio, não podemos nos esquecer que muitas dessas pessoas eram também movidas por uma sincera devoção à Senhora do Rosário, desejando participar, de uma forma ou de outra, do processo de ereção da Capela Nova. Até mesmo o primeiro bispo de Mariana, D. Frei Manoel da Cruz, colaborou com o projeto, tendo solicitado ajuda financeira ao rei de Portugal para as obras do templo.

Os maiores esforços para a construção da Capela despenderam, porém, de escravos e forros, que, para isso, contribuíam com a tarifa de ingresso na Confraria e com o pagamento de taxas anuais, além da participação nos “petitórios”. Os escravos formavam o grupo mais numeroso inscrito na Irmandade do Rosário (em torno de 64% dos membros), sendo os forros ou libertos pouco menos de 27% e os homens nascidos livres menos de 2%.

Uma questão interessante, no tocante aos cativos do Rosário, é que eles estavam distribuídos, entre as décadas finais do século XVIII e início do XIX, por mais de 350 propriedades ou plantéis, o que significa que seu ingresso na Irmandade, longe de ser um ato coletivo, promovido por imposição dos senhores, consistia em uma escolha pessoal. Podemos interpretar tal opção como uma tentativa de autoatribuição, por parte de indivíduos tão subalternizados na sociedade escravista, de uma singular e valiosa identidade socioreligiosa, que lhes conferia um lugar e uma razão de ser no mundo, formulada com base no culto à Virgem e aos santos negros.Além disso, pertencer à Confraria do Rosário também dava acesso a uma rede de sociabilidades caritativas, ainda que tal decisão acarretasse aos escravos e forros dela integrantes compromissos financeiros e religiosos significativos. Assim, pertencer ao Rosário implicava contar com uma associação que deveria responder pelo cuidado com os Irmãos desamparados (inclusive comprando alforrias), com os órfãos e também com os falecidos, já que a vida não findava neste mundo e competia à Confraria interceder pela salvação eterna de seus integrantes. Daí também a importância do cemitério ao lado da Capela, expressão de esperança e solidariedade, amparada na certeza da “comunhão dos santos”. Dessa maneira, em torno dos anos 70 do século XVIII, a Irmandade do Rosário chegou ao apogeu, contando com mais de 900 integrantes inscritos no Livro de Matrículas, fora os que participavam das celebrações sem um registro oficial.

As Devoções

 

A Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos é uma construção simples, mas possui grande expressividade artística nos detalhes da talha folheada a ouro, nas cores delicadas e nas paredes brancas.

A nave (ou interior do templo) foi edificada em formatoretangular, estendendo-se em direção ao altar-mor, onde se encontra o sacrário e, em um nicho (ou cavidade) central, a imagem da Senhora do Rosário, padroeira da Irmandade que liderou a construção da Capela. Existem ainda, neste mesmo altar, três outras peças sacras.Àesquerda, localiza-se a imagem de São Domingos de Gusmão, religioso, fundador da Ordem dos Pregadores e um dos maiores difusores da oração do rosário, na qual cada uma das 150 ave-marias é, por analogia, comparada a uma rosa. Já à direita, foi disposta a figura, em roca, de Santo Antônio de Categeró, africano de fé muçulmana que, vendido como escravo na Sicília, converteu-se ao catolicismo e promoveu inúmeras práticas de caridade, ingressando então como leigo na Ordem franciscana. Entre os dois, situa-se a bela escultura de Cristo Ressuscitado.


Há também dois altares laterais, na altura do arco do cruzeiro, dedicados aos padroeiros das outras duas confrarias que contribuíram para a edificação do templo: Santa Ifigênia, a qual, segundo a tradição, era uma princesa africana que, ao renunciar à Corte, assumira a vida monástica, e São Benedito, escravo negro que retirava alimentos da rica despensa de seus senhores para distribuí-los aos pobres, e ao ser descoberto, só foi
poupado do castigo porummilagre celestial.


Uma vez construída a Capela, a Irmandade do Rosário, com a ajuda das confrarias de São Benedito e Santa Ifigênia, viu-se na responsabilidade de prover sua manutenção e promover o culto religioso, com celebrações de missas cotidianas e da festa da Padroeira. Ora, nas homenagens à Senhora do Rosário ocorridas nas terras de Minas havia uma prática recorrente: a realização do Congado ou Reinado, festejo que rememora uma antiga narrativa devota: Nossa Senhora, compadecendo-se com os sofrimentos dos escravos, teria vindo
até as senzalas, e aí não conteve as lágrimas, que logo transformaram-se em pétalas de rosa – tão similares às rosas ou contas do rosário... Ao perceber a presença da Virgem, os senhores decidiram construir uma capela, e colocar nela uma réplica da figura de Maria Santíssima vista pelos cativos. No entanto, a cada tentativa de ali colocar a imagem da Santa, ela voltava para junto dos escravos, até que esses, cantando e dançando, levaram-na para a capela que eles próprios construíram, onde ela permaneceu definitivamente. O Congado reconstitui esta saga: os participantes conduzem a imagem daVirgem do Rosário até o templo, onde é celebrada uma missa e a Virgem é coroada. Em paralelo, é também promovida a coroação dos reis e rainhas negros, além da outorga de símbolos identitários aos demais integrantes do séquito daVirgem, que passarão a ladeá-la no Congado do ano vindouro. Ademais, como a missa era celebrada ao som de tambores e atabaques, ela passou a ser denominada “missa conga”. Desta maneira, na devoção à Senhora do Rosário, de tez branca e feições européias, mas relida por escravos e forros, negros e mulatos, sustenta-se uma dupla mensagem: a fé cristã incorpora e legitima expressões e valores da cultura afrodescendente em afinidade com o Evangelho, bem como rejeita qualquer manifestação de exploração, injustiça ou crueldade para comos seres humanos.

 

Um Contexto de Crise

 

Aos poucos, porém, as Irmandades do Rosário, de São Benedito e de Santa Ifigênia foram decaindo, assim como as práticas religiosas promovidas na Capela Nova. Devido às muitas dívidas contraídas para a ornamentação do templo, a Mesa diretora do Rosário decidiu diminuir o número de missas a serem celebradas, economizando, com isso, os recursos antes destinados à contratação do capelão e variados gastos do culto. Outro gravíssimo problema para a Irmandade foi o decréscimo dos rendimentos da mineração, pois cativos e libertos já não mais conseguiam encontrar o metal preciso nas faiscações e no leito dos rios, o que os levou a tornarem-se inadimplentes com o pagamento das taxas anuais ou de ingresso. De forma concomitante, com a diminuição da chegada de novos escravos provenientes da África, houve um processo de “crioulização” dos cativos, a partir de então majoritariamente nascidos naAmérica. Com isso, verificou-se o crescimento de Irmandades fundadas por escravos e forros gerados e criados em território colonial, cuja principal padroeira era Nossa Senhora das Mercês; assim, por exemplo, enquanto a Irmandade do Rosário de Mariana recebeu apenas 94 novos devotos entre 1790 a 1819, nas Mercês houve em torno de
900 inscritos.


Outra questão, já no início do século XX, foi a resistência apresentada por bispos e sacerdotes para autorizar atividades religiosas de caráter sincrético, como o Congado, bem como a tentativa promovida pela hierarquia eclesiástica para reorganizar as antigas Irmandades e Ordens Terceiras. Sendo instituições leigas, muitas dessas associações tomavam decisões à revelia do prelado, inclusive no tocante aos valores financeiros arrecadados, ou sem levar em consideração as determinações do pároco com respeito às normas de uso dos templos. Daí a grita por parte do clero, que decidiu estipular fronteiras de ação.

 

Na prática, tal atitude diminuiu o poder decisório das Irmandades, bem como coibiu a prática de ritos que pareciam bem pouco ortodoxos, segundo a perspectiva de padres mais acostumados com o canto gregoriano do que com a batida dos atabaques. Assim, em 1918, a Arquidiocese de Mariana proibiu a realização dos Congados e, em 1923, o jornal Gazeta de Minas afirmou: “O reinado, além de empr es tar ao catol ici smo,
aparentemente, um cunho de idolatria que a sublime religião de Cristo aparentemente não tem, atentava da maneira a mais grosseira e irrisória contra os nossos foros de cidade civilizada”.

 

Foram tempos difíceis para os descendentes dos Irmãos do Rosário de Mariana, que apenas após o Concílio doVaticano II (1962-1965) retomaram o processo de constituição de sua identidade social e étnica a partir da fé. Convidamos então você a acompanhar, no “Informativo Paroquial” do mês de fevereiro, o terceiro e último suplemento sobre a Capela de Nossa Senhora do Rosário, que irá abordar a trajetória desta comunidade nos tempos contemporâneos: o que será que o “povo do Rosário” anda aprontando por aí,emseguimento a Jesus Cristo?

 

Virgínia Buarque