A Liturgia da Palavra de hoje dá continuidade ao belo ensinamento sobre o amor, apresentado na Primeira Carta de São João. O apóstolo aprofunda essa experiência fundamental da fé cristã ao nos recordar que é Deus quem toma a iniciativa: Ele nos ama primeiro, de forma gratuita e incondicional. Nosso amor não nasce do esforço humano, mas é resposta a esse amor que nos precede, nos sustenta e nos chama à comunhão.
São João insiste no verbo “permanecer”, que aparece repetidas vezes em sua carta. Permanecer em Deus não significa posse, acomodação ou algo estático. Pelo contrário, permanecer é seguir, é viver em relação constante, é deixar-se conduzir diariamente pelo amor que vem de Deus. Quem permanece no amor permanece em Deus e se compromete com um modo concreto de viver, marcado pela doação, pela fidelidade e pela abertura ao outro.
O Salmo responsorial amplia esse horizonte e se torna um convite universal: todos os povos são chamados a louvar o Senhor. O amor de Deus não se limita a um grupo ou a uma cultura; ele se manifesta como dom oferecido a toda a humanidade. Louvar a Deus é reconhecer sua presença viva na história e permitir que nossa vida se torne também um testemunho desse amor que alcança a todos.
No Evangelho, seguimos acompanhando os acontecimentos que se sucedem à multiplicação dos pães. Jesus obriga os discípulos a entrarem na barca e seguirem adiante. A missão não termina com o milagre; ela continua, mesmo quando o caminho parece incerto. Enquanto os discípulos enfrentam o mar agitado, Jesus sobe ao monte para rezar. Esse gesto revela algo essencial da vida cristã: a oração não é fuga da realidade, mas fonte de força e discernimento para a missão. Sem o encontro com o Pai, o caminho se torna pesado e o medo toma conta do coração.
Em meio à escuridão da noite e ao vento contrário, Jesus se aproxima caminhando sobre as águas. Os discípulos, tomados pelo medo, não O reconhecem de imediato. Quantas vezes também nós, diante das tempestades da vida, temos dificuldade de perceber a presença do Senhor! Mas a palavra de Jesus ecoa com força e ternura: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo.” É a mesma voz que atravessa o tempo e chega até nós, convidando-nos à confiança.
Essa liturgia nos recorda que o amor de Deus nos precede, nos sustenta e nos envia. Permanecer nesse amor é seguir adiante, mesmo quando o mar está agitado, confiantes de que o Senhor caminha conosco. Alimentados pela oração e fortalecidos pela fé, somos chamados a continuar a missão, certos de que Aquele que nos ama primeiro nunca nos abandona.
Pe. Thiago José Gomes