A Liturgia da Palavra de hoje nos ilumina sobre o que realmente agrada a Deus e como a presença e a mensagem de Jesus vêm para transformar a nossa vida por completo.
A Primeira Leitura nos leva de volta à história do Profeta Samuel e do Rei Saul. Samuel repreende Saul por sua desobediência a Deus, mesmo quando o rei tenta justificar suas ações, alegando que o povo havia oferecido sacrifícios. A mensagem que ressoa aqui é poderosa e eterna: Deus não busca barganhas ou ritos vazios. Ele quer, acima de tudo, a nossa obediência sincera à Sua Palavra. Isso é muito mais valioso do que qualquer oferta externa. O Senhor busca um coração que escuta, que confia e que se entrega à Sua vontade de verdade.
E o Salmo que rezamos hoje complementa essa ideia, nos perguntando: qual é o sacrifício que realmente agrada a Deus? A resposta ecoa em nossos corações: é o sacrifício de uma vida reta, de um coração puro, de quem age com justiça e bondade em todas as suas ações. Aquele que procede retamente é quem oferece o verdadeiro louvor ao Senhor.
No Evangelho, Jesus nos presenteia com reflexões ricas e transformadoras, nos ajudando a ver além das comparações sobre o jejum e as práticas religiosas. Ele se apresenta como o Noivo que deseja unir-se à humanidade, à Sua Igreja. Estar na presença do Noivo, viver essa profunda união com Ele, é motivo de grande alegria e celebração, algo que vai muito além de qualquer renúncia isolada ou comparativo com o próximo. Em seguida, Jesus antecipa um momento de dor e entrega, anunciando Sua própria morte – um acontecimento que, paradoxalmente, abriria o caminho para a maior das vitórias e para a vida plena.
E é nesse contexto que Jesus nos ensina com as imagens misteriosas, mas cheias de sabedoria, do vinho novo em odres velhos e do remendo novo em pano velho. Pensemos um pouco juntos. Naquela época, os odres eram feitos de pele de animal. Quando novos, eram maleáveis e flexíveis. O vinho novo, quando recém-produzido, passa por um processo de fermentação, libera gases e se expande. Se você colocasse esse vinho novo e vibrante em um odre velho, que já estava ressecado e rígido, o odre não teria elasticidade para suportar a pressão, e se romperia, perdendo-se tanto o odre quanto o precioso vinho.
Jesus usou essa imagem para nos explicar algo fundamental: a Sua mensagem, a Sua vida, a Sua presença são a grande NOVIDADE de Deus! O "odre velho" representa as antigas estruturas, as leis e as tradições religiosas que, com o tempo, podem se tornar rígidas, inflexíveis e até legalistas. Representa também a nossa própria mentalidade antiga, nossos preconceitos, hábitos e formas de pensar que se fecham para o novo. O "vinho novo" é a própria essência de Jesus: o Evangelho, o Reino de Deus, a Nova Aliança, o Espírito Santo, a graça e o amor transbordantes que Ele veio trazer. É algo dinâmico, que rompe barreiras e transforma tudo. A grande lição é que Jesus não veio para ser um "remendo" ou um "ajuste" para algo velho e falho. Não podemos tentar encaixar essa vida nova e transformadora de Cristo em nossas antigas formas de pensar ou de viver a religião, se estas são rígidas e fechadas. Se insistirmos em fazer isso, a novidade de Jesus não será acolhida de verdade, e a nossa fé será superficial, sem vida, e até mesmo podemos "romper" com a essência do que Ele nos propõe.
Portanto, meus irmãos e irmãs, essa liturgia nos convida a uma profunda reflexão: estamos dispostos a abandonar nossos "odres velhos"? Aquelas ideias preconceituosas, velhos hábitos, ou formas de pensar que nos impedem de acolher plenamente a graça e a verdade de Jesus? A fé em Cristo não é um simples "retoque" em quem éramos. É uma transformação radical, que nos pede para sermos como "odres novos" para receber o "vinho novo" do Espírito Santo, que nos dá vida plena. Para isso, precisamos ter um coração flexível, humilde e aberto às surpresas de Deus, e não um coração endurecido pelo legalismo ou pela simples rotina. Jesus é a grande Novidade, e Ele nos chama a abraçar essa novidade com um coração completamente renovado, vivendo a obediência e a alegria que nos dão a verdadeira liberdade.
Que a Palavra de Deus nos guie e nos fortaleça nesta jornada de fé, transformando-nos em odres novos para o Vinho Novo de Cristo!
Pe. Thiago José Gomes