Neste dia 22 de janeiro, a Liturgia da Palavra nos oferece ricas reflexões sobre a natureza humana, a providência divina e o chamado a um encontro mais profundo com Jesus. As leituras nos convidam a olhar para dentro de nós mesmos e para a forma como nos relacionamos com Deus e com o próximo.
Na Primeira Leitura, continuamos a acompanhar a saga de Davi. Após sua gloriosa vitória sobre Golias, o povo, extasiado, começou a cantar louvores, comparando-o e exaltando-o mais do que o próprio rei Saul. Essa exaltação de Davi, infelizmente, fez brotar no coração do rei Saul um ciúme amargo e perigoso. Nesse momento de tensão, surge uma figura de imensa importância: Jonatas, filho de Saul. A amizade e o amor fraterno que brotavam de sua relação com Davi eram tão profundos que ele tentava, com sabedoria, trazer uma visão mais real e ponderada da situação ao seu pai. O coração do rei tinha alguém para equilibrar, para tentar dissuadi-lo do caminho do ciúme e da ira. Isso nos faz pensar: será que nossas amizades nos auxiliam a ter essa visão mais real e equilibrada quando somos tomados por sentimentos que nos desviam? Jonatas consegue trazer um momento de paz, ainda que temporário, para um coração real que, infelizmente, já começava a se fechar. A história de Saul nos alerta sobre o perigo de permitir que o ciúme e a inveja dominem, mesmo quando há vozes de razão e amor ao nosso lado. Qual seria a nossa própria reação diante de sentimentos semelhantes?
O Salmo de hoje ecoa essa lição, lembrando-nos que nossa verdadeira confiança deve estar sempre no Senhor. Ele é quem nos sustenta e guia, quem nos oferece refúgio e segurança, independentemente das paixões humanas que nos rodeiam e dos desafios que enfrentamos. É a confiança em Deus que nos permite superar os ciúmes e as invejas que podem tentar nos desviar do caminho.
No Evangelho, somos levados a um momento vibrante da missão de Jesus. Ele se coloca para ensinar e curar uma multidão tão grande que, para ser melhor ouvido e visto por todos, foi preciso subir em uma barca. Ali, um pouco afastado da margem, Jesus insiste em ensinar, em partilhar a Boa Nova, a Verdade que liberta e transforma. Mas há um detalhe que nos chama a atenção: Jesus repreende aqueles que, mesmo sabendo quem Ele era, talvez buscavam n'Ele apenas os milagres, as curas, a solução para problemas imediatos, sem um desejo real de um encontro pessoal e transformador com a Sua Palavra. Eles conheciam Jesus de nome, por suas ações, mas talvez não O conheciam verdadeiramente em seus corações. Isso nos leva a perguntar: e nós, o que buscamos em Jesus? Procuramos apenas as graças, as "curas" para as nossas dificuldades, ou desejamos um encontro profundo que nos transforme por inteiro e nos leve a viver segundo o Seu ensinamento?
Neste dia, somos convidados a refletir sobre os perigos do ciúme que pode corroer o coração, a importância vital das amizades verdadeiras que nos trazem equilíbrio e bom senso, e a confiança inabalável em Deus como nosso refúgio. Acima de tudo, somos chamados a ir além do conhecimento superficial de Jesus, buscando um encontro pessoal e sincero com Ele. Que a Sua Palavra e a Sua presença curem e ensinem nosso coração, permitindo-nos viver uma fé autêntica, livre dos ciúmes e plena na alegria do encontro com o Mestre, assim como Davi confiava em Deus e Jesus insistia em nos guiar para a vida verdadeira.
Pe. Thiago José Gomes