Neste dia 20 de janeiro, nossa Igreja celebra com grande fervor a memória de São Sebastião, um mártir da fé que, mesmo em tempos de perseguição, deu um testemunho de vida inabalável. Para nós, esta data é ainda mais especial, pois temos uma comunidade dedicada a ele e o próprio bairro de nossa matriz leva seu nome. A história de São Sebastião continua a nos inspirar profundamente em tempos que também nos desafiam.
São Sebastião, militar respeitado e bem-quisto, viveu sua fé em um período em que ser cristão era proibido e podia custar a própria vida. O mais marcante em sua história é que ele assumiu sua fé na prática, sem a necessidade de grandes discursos. Sua vida era um testemunho constante. Ele nos mostra que ser cristão é, antes de tudo, viver e agir de acordo com os valores de Cristo. Quando foi denunciado, não esmoreceu, mas preferiu a verdade, optando pela vida verdadeira que não se constrói sobre a mentira ou a covardia. Ele sofreu um duplo martírio, e hoje se ergue como um farol para nós, nos lembrando da coragem necessária para defender aquilo em que acreditamos e para viver com integridade. Ele é invocado como padroeiro contra a peste, a fome e a guerra, e sua intercessão é um conforto para todos nós.
A Liturgia da Palavra deste dia dialoga de forma surpreendente com o exemplo de São Sebastião e com os desafios de nossa fé.
Na Primeira Leitura, somos transportados para o momento da eleição e unção do rei Davi. Saul precisava ser substituído, e o profeta Samuel foi encarregado de encontrar o novo líder entre os filhos de Jessé. O longo processo de eliminação, em que os irmãos de Davi foram apresentados, nos mostra que os critérios de Deus são muito diferentes dos nossos. Enquanto nós olhamos para a aparência, para a força, para o que é visível e grandioso, Deus vê o coração. Ele enxerga as possibilidades, a capacidade de entrega e a verdadeira intenção. A aparente fraqueza de Davi, sua juventude e sua simplicidade, tornaram-se, diante de Deus, fonte de bênçãos e de uma missão grandiosa. Ele escolhe o pequeno e o humilde para realizar grandes obras. O Salmo que segue, então, nos apresenta a beleza e a importância dessa missão do rei, que governa o povo de Deus com justiça e retidão.
Já o Evangelho nos traz um episódio peculiar de Jesus, que nos convida a uma reflexão crucial sobre o verdadeiro sentido da Lei. Seus discípulos colhem espigas de trigo para comer no dia de sábado, gerando uma controvérsia com os fariseus. A questão aqui não era simplesmente o gesto de colher e comer, mas a interpretação rígida que se fazia do mandamento do sábado. Jesus é claro ao dizer que eles haviam distorcido o sentido divino do mandamento. O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. Além disso, Jesus evoca a figura do Rei Davi – o mesmo que acabamos de ver sendo escolhido por Deus – que, em uma situação de necessidade, também agiu de forma que a lei superficialmente não permitiria. Ao trazer à tona esse episódio conhecido, Jesus os confronta, mostrando que eles estavam equivocados em sua visão. A lei deve servir à vida, à misericórdia, ao amor, e não se tornar um fardo pesado que aprisiona as pessoas e as afasta de Deus.
Assim, neste dia de São Sebastião, somos chamados a unir esses ensinamentos. Que a nossa fé seja vivida não apenas em palavras, mas em ações concretas, como a de São Sebastião. Que possamos reconhecer que Deus nos escolhe não por nossas aparências, mas por aquilo que Ele vê em nosso coração, assim como escolheu Davi. E que, inspirados por Jesus, saibamos discernir o verdadeiro espírito da Lei e do Evangelho, priorizando sempre o amor, a misericórdia e a vida, sem cair em legalismos que nos afastam do essencial. Que a novidade de Cristo nos impulsione a viver uma fé autêntica e corajosa em nosso dia a dia.
Pe. Thiago José Gomes